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Os (novos) anos do Vietname?

Os (novos) anos do Vietname?

Terminei de assistir ontem aos fabulosos 1035 minutos do documentário «The Vietnam War», realizado por Ken Burns e Lynn Novick. A propósito disso, pensei naquilo que alguns benfiquistas designam pelos seus «anos do Vietname», que era quando recebíamos pancada de todo o lado, entrávamos em muitas lutas para depois não vencermos guerra alguma, enfim, quando entre 1994 e 2004 ficamos sem ganhar um título. Mas não sei se «anos do Vietname» é a melhor expressão para enquadrar esse período. Aquilo foi mais uma guerra contra o império do mal, tipo Segunda Guerra Mundial, com a agravante de que o senhor do mal nunca foi totalmente derrotado (ainda continua a gerir o seu “país”) e nós tivemos um Vale e Azevedo (o pior presidente da nossa História) a nos liderar, invés dum Churchill.

Mas, agora sim, talvez estejamos a entrar em verdadeiros «anos do Vietname». Porque os benfiquistas estão muito divididos sobre o seu clube e o que significa a sua defesa (o conceito de «benfiquismo» a ser posto em causa como o de «patriota» o foi nos EUA durante o Vietname, com acusações várias entre benfiquistas, na velha dicotomia entre os que preferem a unidade contra o inimigo exterior e os que não abdicam de ser oposição e apontam baterias às evidentes falhas internas); porque perdemos, queiramos ou não, alguma da nossa inocência e a nossa superioridade moral (como os americanos viram a sua excepcionalidade posta em causa com os eventos, as atrocidades que cometeram, e a derrota final no seu Vietname); porque estamos metidos numa batalha tão grande que perdemos o foco para travar todas as outras batalhas que têm de ser travadas (é sabido como a guerra do Vietname conseguiu tirar foco à política interna dos vários presidentes); porque temos um presidente fragilizado, agarrado ao poder, que nos mente, provavelmente capaz de ultrapassar a barreira da legalidade para se defender, e que não transpira confiança (à imagem sobretudo de Nixon, um maluquinho pelo controlo da informação, o que acabou por ditar o seu fim).

Nixon que, convém dizer, virou um maluquinho pelo controlo da informação em sequência dos receios que a divulgação dos denominados Papéis do Pentágono, documentos ultra-secretos que nunca deviam ter sido do conhecimento público, lhe provocaram (caso dos e-mails diz-vos alguma coisa?). Nixon que caiu do poder porque acabou mesmo a tentar pôr escutas e obter informação de forma ilegal sobre os seus adversários políticos, naquilo que ficou conhecido pelo caso Watergate (caso e-toupeira diz-vos alguma coisa?).

Enfim, note-se que na sequência da guerra do Vietname, cuja justificação inicial que tudo parecia permitir era a de que os americanos estavam a combater os comunistas (assim um pouco como nós gostamos de justificar toda e qualquer acção do Benfica como um combate contra o FCP), os EUA, apesar da derrota na guerra, não deixaram de ser uma grande nação e a União Soviética é que acabou por ruir. Mas aprenda-se a lição: nem uma grande nação deixa de praticar o mal de vez em quando. E a sua grandeza é tão maior quanto mais o seu povo consegue resistir, contestar e revoltar-se internamente contra os seus próprios erros e falhas.

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